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Terapia de Família

Luto na infância

quando toda a família precisa aprender a lidar com a ausência

Angélica Gavaldão

Angélica Gavaldão CRP 01/9309

Psicóloga • Mestra e Doutoranda em Psicologia (UCB)

25 de set. de 2026 · 6 min de leitura

Luto na infância

A morte de uma pessoa significativa provoca mudanças que ultrapassam a ausência física de quem partiu. Rotinas precisam ser reorganizadas, papéis podem ser redistribuídos, relações se modificam e cada integrante da família busca, à sua maneira, compreender o que aconteceu e encontrar formas de continuar vivendo. Quando crianças estão presentes na família, soma-se a esse processo uma preocupação frequente dos adultos: como falar sobre a morte e como ajudá-las a lidar com uma experiência tão dolorosa?

Na tentativa de protegê-las, familiares podem evitar conversar sobre a morte, omitir informações, utilizar explicações pouco claras ou afastar as crianças das manifestações familiares de sofrimento. No entanto, a criança percebe as mudanças ao seu redor. Ela observa a tristeza dos adultos, as alterações na rotina e, sobretudo, a ausência de quem fazia parte de sua vida.

A abordagem sistêmica permite ampliar o olhar sobre essa experiência. Em vez de compreender somente uma criança que perdeu alguém, podemos pensar em uma família enlutada que precisa encontrar formas de acolher o sofrimento de seus membros e reorganizar-se diante da perda, especialmente quando a criança faz parte desta família.

Quando a morte atravessa a família

A morte de um membro da família produz repercussões no sistema familiar como um todo e pode modificar funções, vínculos, fronteiras, rotinas e expectativas de futuro. Nesse contexto, a maneira como a criança vivencia sua perda também se relaciona ao modo como os adultos significam e enfrentam as suas perdas.

Franco e Mazorra (2007), ao estudarem crianças que vivenciaram a morte de um ou ambos os genitores, compreendem o luto infantil como um processo de reconstrução e reorganização diante da perda. As autoras destacam que a elaboração do luto da criança está relacionada a diferentes fatores: a relação com a pessoa falecida e com o genitor sobrevivente, as circunstâncias e o tipo de morte, as informações que recebeu, a possibilidade de conversar sobre o ocorrido e sobre quem morreu, a dinâmica familiar, os rituais e as mudanças que aconteceram em sua vida cotidiana. Destacam ainda que esse processo está intimamente relacionado às possibilidades de elaboração do luto pelo genitor sobrevivente e pelos demais integrantes da família (Franco & Mazorra, 2007).

Isso nos mostra que cuidar de uma criança enlutada envolve também olhar para os adultos que cuidam dela. Um pai, uma mãe ou outro responsável pode estar, de certa forma, enfrentando simultaneamente sua própria dor e a responsabilidade de oferecer segurança emocional à criança. Algumas famílias conseguem falar sobre a pessoa que morreu, já outras pessoas silenciam. Algumas pessoas conseguem compartilhar sentimentos, já outras entendem que precisam permanecer “fortes”, especialmente frente à criança. Em determinados contextos, falar sobre quem morreu pode aproximar os membros familiares, já em outros, o assunto pode ser evitado para não provocar mais sofrimento.

A criança também precisa compreender o que aconteceu

Uma questão fundamental é reconhecer que as crianças também vivem o luto, embora nem sempre o expressem da mesma maneira que os adultos. Franco e Mazorra (2007) ressaltam que o luto infantil possui características próprias e não deve ser compreendido como uma versão incompleta ou deficiente do luto adulto. A elaboração pode acontecer em diferentes momentos do desenvolvimento, à medida que a criança adquire novos recursos cognitivos e emocionais para atribuir significado àquilo que viveu.

A idade e o desenvolvimento cognitivo influenciam especialmente a compreensão do conceito de morte. Crianças menores podem apresentar dificuldade para compreender sua irreversibilidade e permanência. Com o passar do tempo e com o desenvolvimento, passam a diferenciar melhor vida e morte e a compreender que a morte é definitiva e pode ocorrer em algum momento com todos os seres vivos (Lima & Kovács, 2011). Sendo assim, diante de uma criança enlutada, é importante perguntar não apenas “o que aconteceu?”, mas também “o que ela compreendeu sobre o que aconteceu?”.

Quando faltam informações, a criança pode construir suas próprias explicações para preencher as lacunas deixadas pelos adultos. Dependendo de sua idade e de seu desenvolvimento, podem surgir sentimentos de culpa, medo, desamparo, fantasias e dúvidas que podem não ser verbalizadas diretamente (Franco & Mazorra, 2007).

Neste sentido, é importante que o terapeuta esteja atento às diferentes linguagens pelas quais a criança comunica sua experiência. Palavras são apenas uma das formas de expressar sentimentos. Brincadeiras, desenhos, histórias, mudanças comportamentais e manifestações corporais também podem oferecer caminhos para compreender como aquela criança está atribuindo significado à sua perda.

Proteger não significa esconder a morte da criança

Uma das situações mais delicadas enfrentadas pelas famílias é decidir o que e como contar à criança sobre a morte de uma pessoa próxima. Muitas vezes, o silêncio surge de uma intenção legítima de proteção, com pensamentos como: “ela é muito pequena para entender”, ou mesmo “não quero que ela sofra”. Entretanto, proteger uma criança não significa necessariamente afastá-la da realidade que toda a família está vivendo.

Lima e Kovács (2011) destacam a importância de uma comunicação aberta, clara e compatível com o nível de compreensão da criança. O estudo também aponta benefícios do compartilhamento de sentimentos e a relevância do apoio oferecido pela família extensa. As autoras recomendam ainda que a comunicação da morte seja feita, preferencialmente, por alguém que possua forte vínculo afetivo com a criança. Falar de forma aberta não significa oferecer à criança todos os detalhes sobre a morte. Significa fornecer informações verdadeiras, compreensíveis e suficientes para que ela possa construir uma representação possível do que aconteceu.

Também é importante que a família possa abrir espaço para perguntas. Alguns questionamentos poderão aparecer imediatamente, outros, semanas, meses ou até anos depois. Uma mesma perda pode adquirir novos significados conforme a criança vai crescendo. Por isso, conversar sobre a morte não deveria ser entendido como uma conversa única e definitiva, mas como um processo de comunicação familiar que pode ser retomado ao longo do desenvolvimento. Neste sentido, incentivar que os adultos possam demonstrar tristeza pode ajudar a criança a compreender que sentir saudade, chorar e falar sobre quem morreu são experiências possíveis diante de uma perda. Compartilhar emoções não significa transferir para a criança a responsabilidade pelo sofrimento do adulto, mas permitir que ela reconheça que o luto pode ser vivido dentro das relações familiares.

O terapeuta familiar diante do luto da criança

A compreensão contemporânea do luto tem questionado a ideia de que uma elaboração bem-sucedida dependa do desligamento emocional da pessoa falecida. Perspectivas voltadas à reconstrução de significados e aos vínculos contínuos consideram que a relação com quem morreu pode adquirir uma nova forma e ser integrada à história de quem permanece (Lima & Kovács, 2011). Neste sentido, a terapia familiar não deve ter como objetivo fazer com que a criança “supere” ou esqueça a pessoa que morreu. Nesse contexto, o terapeuta pode ajudar a família a construir um espaço em que seja possível falar da morte, nomear emoções, esclarecer dúvidas, recuperar memórias e reconhecer diferentes maneiras de sofrer. Nas sessões, a família pode compartilhar fotografias, histórias, desenhos, objetos significativos, lembranças e rituais familiares que podem favorecer conversas que talvez fossem difíceis de iniciar diretamente, no cotidiano familiar.

A perspectiva sistêmica também convida o terapeuta a investigar: como essa família compreende a morte? Como os membros familiares se comunicam e falam ou não de quem morreu? O que a criança sabe? Quem contou para a criança? Existem segredos ou informações que estão sendo evitadas? Quem assumiu novas funções e papéis familiares depois da perda? Há alguém que está oferecendo segurança para a criança? Há espaço para diferentes manifestações de tristeza? Quais pessoas da família extensa ou da rede social podem oferecer apoio?

Mais do que encontrar uma maneira correta de viver o luto, a condução do terapeuta familiar deve ocorrer no sentido de auxiliar a família a encontrar formas possíveis de continuar vinculada, e formas de comunicar-se e reorganizar-se diante de uma realidade que não pode ser mudada. Para a criança, talvez uma das experiências mais protetivas seja justamente perceber que não precisa compreender e enfrentar a morte sozinha. Quando ela encontra adultos disponíveis para responder às suas perguntas, reconhecer seus sentimentos e permitir que a pessoa falecida continue fazendo parte das histórias e das memórias familiares, ela pode construir, progressivamente, significados para as suas vivências, contribuindo para a elaboração da perda.

Assim, diante do luto infantil, o terapeuta familiar não cuida apenas de uma criança que perdeu alguém, mas cuida das relações que poderão ajudar essa criança a enfrentar a sua perda.

Referências

Franco, M. H. P., & Mazorra, L. (2007). Criança e luto: Vivências fantasmáticas diante da morte do genitor. Estudos de Psicologia (Campinas), 24(4), 503–511.

Lima, V. R. de, & Kovács, M. J. (2011). Morte na família: Um estudo exploratório acerca da comunicação à criança. Psicologia: Ciência e Profissão, 31(2), 390–405.

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Como citar este artigo

GAVALDÃO, Angélica. Luto na infância: quando toda a família precisa aprender a lidar com a ausência. Práticas Sistêmicas, [S. l.], 25 set. 2026. Disponível em: https://praticassistemicas.psc.br/artigos/luto-na-infancia-quando-toda-a-familia-precisa-aprender-a-lidar-com-a-ausencia. Acesso em: 1 out. 2026.

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Conteúdo de caráter informativo — não substitui avaliação, diagnóstico ou atendimento por profissional de saúde mental.