Casais contemporâneos e o desafio de compartilhar
Flávio Lôbo CRP 01/7778
Psicólogo • Mestre em Psicologia Clínica (UnB)
23 de ago. de 2026 · 6 min de leitura
“Meu casamento pode ter sido um fracasso, mas meu divórcio foi um sucesso”, disse uma paciente que havia iniciado psicoterapia individual há poucas semanas. Mãe de um filho pequeno e divorciada, ela admitia um pensamento que normalmente não se revela em voz alta: “Como é bom chegar em casa na sexta-feira, sabendo que meu filho está na casa do pai.” Esse era um gozo revelado para mim com constrangimento e culpa. “Será que não amo o meu filho?”
Não foi a única vez que ouvi uma confissão desse tipo em meu consultório e seria muito tentador apenas julgá-la como imatura e egoísta. Mas o drama daquela mulher merece um olhar cuidadoso. Um sofrimento que diz respeito também ao tempo em que vivemos e é sobre isso que pretendo refletir neste breve texto.
Bauman (2001) nos mostra que vivemos um momento histórico marcado por mudanças profundas. Embora suas raízes estejam nas transformações econômicas e produtivas, seus efeitos alcançam a organização da sociedade e a vida íntima das pessoas.
Nossos avós viveram em um mundo mais previsível e estável. Seguiram um modelo conservador de família, baseado em valores patriarcais e em definições rígidas dos papéis de homens e mulheres. Já nossos pais e nós transitamos para modelos menos rígidos e mais atentos às singularidades. Novos arranjos familiares ganharam aceitação e mesmo os casais heterossexuais revelam uma pluralidade e fluidez que exemplificam o que o próprio autor define como relações líquidas.
Dentro desse cenário de transformação, as conquistas feministas ampliaram a liberdade das mulheres implicando transformações profundas na dinâmica dos relacionamentos conjugais. Todos esses avanços foram realmente fundamentais, mas estão longe de evitar contradições ou proteger as pessoas do sofrimento. Quais são então os desafios dos chamados casais contemporâneos?
Olhar para o fenômeno do divórcio constitui uma forma de compreender a crise do casamento na contemporaneidade. Barcellos, Dantas e Féres-Carneiro (2022) colheram depoimentos de mulheres na fase pós-divórcio. Sem a pretensão de alcançar algum resultado generalizável, o estudo lançou luz sobre questões relevantes presentes nos divórcios bem-sucedidos.
A maior parte dos relatos das entrevistadas permitiu concluir que “O fim da conjugalidade insatisfatória (...) conduziu ao bom funcionamento do casal parental após a separação, caracterizado por sentimentos de admiração e de respeito.” (p. 10).
Em minha prática clínica, relatos de divórcios construtivos não são os mais frequentes, mas ouço pacientes mulheres atestarem que após o divórcio, o número de horas de dedicação dos pais aos filhos foi ampliado e que eles acabaram assumindo mais responsabilidades do que quando casados. Elas admitem que isso favoreceu o arrefecimento das críticas e do clima de animosidade, ampliando a parceria com o ex-cônjuge.
Muitas vezes, percebo que, em decorrência desta parceria, os espaços individuais dos adultos são favorecidos. Agora menos sufocados pelo papel parental, podem retomar atividades que faziam antes da chegada dos filhos. Voltar a investir na socialização, na atividade física e em projetos pessoais.
Mas será que é preciso o divórcio para que essas mudanças tão relevantes se operem na organização de um par parental contemporâneo? Por que casais com pessoas livres e independentes não estão conseguindo negociar seus papéis na transição para a parentalidade?
Vejamos alguns fatores.
Exacerbação dos valores individualistas
Com o Iluminismo, o ideal moderno de autonomia individual dissolveu estruturas sociais rígidas, favoreceu a obtenção de direitos – primeiro concedidos apenas aos homens e depois conquistados pelas mulheres – na sociedade e dentro da família.
Mas a exacerbação recente desses valores também gerou impacto negativo. Na contemporaneidade, o enfraquecimento das instituições fragiliza os vínculos de pertencimento. Se temos o ganho da liberdade, temos a perda da noção de comunidade.
A igualdade simétrica e a competição
Para compreender o cenário da transição para a parentalidade, o olhar para as questões de gênero é essencial. Abrir mão disso seria permitir a naturalização de diferenças que são culturais.
Na contemporaneidade, a fluidez das normas sociais e dos papéis de gênero torna necessária a constante negociação das tarefas para que o casal chegue a uma distribuição igualitária. A busca por igualdade não é o problema; o problema é quando a igualdade é interpretada como comparação permanente e contabilização de esforços.
Como terapeuta de casal, procuro trazer à tona os jogos conversacionais. Não se trata apenas do que é dito, mas do como está sendo dito. Por vezes, parece que os cônjuges estão em tribunas de um debate político, tentando convencer a audiência de que os argumentos do oponente são absurdos:
“Cansado estou eu, que trabalhei o dia todo e não tive um minuto pra mim! Quando chego em casa, a primeira coisa que ela faz é me entregar o bebê!”
“Eu queria estar trabalhando numa boa atrás de um computador, respondendo mensagens, conversando com os colegas, tomando um café. Isso sim seria descanso!”
Tenho a impressão de que, dessa forma, a lógica competitiva acaba contaminando a busca legítima por igualdade. Essa busca, que deveria ser um projeto compartilhado do casal, transforma-se numa arena de reivindicações individuais.
Outra tendência observada é o que chamo de perseguição da simetria: a ideia de que toda diferença entre os cônjuges representa necessariamente uma injustiça a ser corrigida.
“Ele não consegue colocar o bebê para dormir porque está de má vontade.”
“Eu acharia ótimo estar em casa, podendo dormir de dia para compensar as noites em claro com o bebê!”
Nessa lógica, as dificuldades do outro deixam de ser percebidas como limitações reais e passam a ser interpretadas como falta de empenho ou de compromisso.
Idealização e espetacularização da intimidade
Em minha experiência clínica percebo que, por trás desse nível de crítica e exigência para com o cônjuge, frequentemente se escondem visões idealizadas sobre a parentalidade e a família.
Certa vez um paciente relatou que ficou decepcionado com a esposa, que havia passado a gravidez com muito enjoo e falta de disposição. Ele imaginara a gravidez de uma mulher como um período luminoso e se ressentia por não ter vivido isso ao lado dela.
São também frequentes relatos de frustração com o parto, decepção com o processo de amamentação, com as avós e outras pessoas da família extensa.
Outro casal esperava manter a vida social bem ativa mesmo nos primeiros meses do bebê. Queriam levá-lo para todos os lados, como fazem os casais europeus (sic). Eram pais “descolados”, mas o bebê muitas vezes chorava incessantemente e tinha problemas para dormir. Isso fazia com que eles ficassem mais restritos ao ambiente doméstico, muito aquém da “performance social” que pretendiam.
Mais exemplos dessa parentalidade performática são vistos nas redes sociais. Modelos de como se alimenta, como se educa, como se diverte, como se passeia, como se viaja. A exposição da intimidade no espaço público alude ao que Bauman (2001) denomina “supermercado de identidades”, no qual as pessoas escolhem quais preferências, habilidades e estilos de vida pretendem absorver.
Mas o que acontece quando essas lindas roupas, exibidas em manequins de medidas irreais, ficam apertadas em nós? O que fazer quando nos sentimos desajeitados dentro dos trajes que imaginávamos que nos cairiam tão bem? Partimos em busca da próxima vitrine?
A crítica de Bauman está no fato da sociedade contemporânea envolver seus membros mais na condição de consumidores do que propriamente criadores.
Volto então à paciente que iniciou esta reflexão. Talvez seu alívio nas sextas-feiras não fosse um sinal de desamor pelo filho. Talvez revelasse apenas o esgotamento de quem precisou sustentar, por tempo demais, responsabilidades que poderiam ter sido compartilhadas. O seu sofrimento fala das dificuldades encontradas por muitos casais para reorganizar a vida quando deixam de ser apenas parceiros amorosos e se tornam também pai e mãe. A transição para a parentalidade continua sendo uma das tarefas mais complexas do ciclo de vida familiar, e talvez um dos maiores desafios do nosso tempo seja encontrar formas de atravessá-la sem que a liberdade conquistada se transforme em solidão.
Referências
Barcellos, M. R., Dantas, C. R., & Féres-Carneiro, T. (2022). Fim da conjugalidade na transição para a parentalidade: Adaptação feminina ao novo arranjo familiar. Psicologia: Ciência e Profissão, 42, e233736. https://doi.org/10.1590/1982-3703003233736
Bauman, Z. (2001). Modernidade líquida (P. Dentzien, Trad.). Jorge Zahar Editor. (Obra original publicada em 2000).
Como citar este artigo
GUIMARÃES, Flávio Lôbo. Casais contemporâneos e o desafio de compartilhar. Práticas Sistêmicas, [S. l.], 23 ago. 2026. Disponível em: https://praticassistemicas.psc.br/artigos/casais-contemporaneos-e-o-desafio-de-compartilhar. Acesso em: 6 out. 2026.
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