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Terapia de Família

Projeto da Família: um recurso terapêutico sistêmico

Valéria Tassara

Valéria Tassara CRP 04/10332

Psicóloga • Mestra em Ciências da Saúde (UFMG)

28 de jul. de 2026 · 5 min de leitura

Projeto da Família: um recurso terapêutico sistêmico

Compartilho um cenário que encontro com frequência em minha prática profissional como psicóloga e terapeuta de família, acompanhando crianças, adolescentes com obesidade e seus familiares.

É comum receber mães e pais que chegam ao consultório expressando angústia, frustração e um sentimento de impotência, por acreditarem que já "tentaram de tudo" para ajudar seus filhos/filhas a perder ou manter o peso corporal. Ao mesmo tempo, as crianças e os adolescentes frequentemente se mostram ansiosos, e muitas vezes, sofrendo por não compreenderem o que está acontecendo com suas emoções e com seus corpos.

Diante dessa realidade, convido à reflexão a partir de uma perspectiva sistêmica. Isso significa ampliar nosso olhar e reconhecer que a criança ou o adolescente que vive com obesidade está inserido em uma rede de relações e contextos biofamiliares, sociais, econômicos e culturais. Em outras palavras, ninguém desenvolve a obesidade de forma isolada. Cada criança e cada adolescente faz parte de um conjunto de interações que influenciam sua saúde, seu desenvolvimento e sua relação com a alimentação, o corpo e as emoções.

Ao compreendermos essa complexidade, abrimos espaço para intervenções mais humanas, acolhedoras e efetivas, que ultrapassam o foco exclusivo no peso corporal e consideram a pessoa em sua integralidade, bem como os vínculos e contextos que fazem parte da sua história.

As histórias de vida de crianças e adolescentes com obesidade carregam muito mais do que hábitos alimentares. Elas trazem bagagens dos aprendizados emocionais e relacionais vividos por seus pais e mães, que, por sua vez, também foram constituídos nas relações afetivas com seus próprios pais, avós e demais membros da família.

Crenças e valores sobre alimentação, cuidado, parentalidade e os significados de ser mãe, pai e família atravessam as gerações. São heranças simbólicas que fortalecem o sentimento de pertencimento e preservam a memória familiar, seja por meio das receitas das avós, dos encontros em torno da mesa e até mesmo de identificações como: "Sou gorda igual à minha avó."

Essas identificações físicas e simbólicas, que atravessam as gerações, remetem na teoria sistêmica às lealdades invisíveis que se entrelaçam à dinâmica das relações familiares contemporâneas e influenciam a forma como cada pessoa constrói sua relação com o corpo, com a alimentação e consigo mesma. Por isso, no cuidado de crianças e adolescentes com obesidade, é fundamental considerar essas histórias e os vínculos familiares.

Na perspectiva sistêmica foi possível construir um recurso terapêutico “Projeto da Família” que envolve a participação das crianças, adolescentes e seus familiares. Este recurso possibilita desenvolver um espaço conversacional lúdico entre filhos e filhas, pais, mães mediados pela terapeuta, para identificarem conflitos relacionados aos hábitos alimentares da família de origem e da família atual, assim como, as dificuldades e possibilidades das relações afetivas entre eles. Assim, essas questões são registradas em um círculo numa folha de papel denominada de Projeto da Família e os nomes dos familiares.

Essa abertura conversacional e emocional que filhos/filhas, mães e pais estabelecem propicia que se posicionem de forma diversa do habitual, como exemplo, uma adolescente revelou uma dor emocional na relação com o pai, pedindo para que parasse com “brincadeiras”, “apelidos” em relação ao corpo dela. O pai, por sua vez, se expressou assustado, pois até então, considerava natural esses apelidos que remetem à identificação gordo que foram transmitidos na geração do seu pai para ele no lugar de filho, e agora ele reproduz o mesmo apelido no lugar de pai para filha. O pai se sensibilizou com o sofrimento da filha, se prontificou a mudar e foi cuidadoso convidando a filha para fazer caminhada com ele. Sendo assim, essas lealdades invisíveis das relações transgeracionais podem ser explicitadas e flexibilizadas, facilitando o fluir das possíveis mudanças do sistema familiar.

A confecção do Projeto da Família prossegue com o registro das mãos de cada familiar em torno do círculo que contém as questões a serem cuidadas. Pai, mãe, filho/filha escrevem nesse registro da própria mão, atitudes colaborativas que cada um se compromete a exercitar. O pai do exemplo anterior registrou sua atitude colaborativa na relação com sua filha, assim como a mãe, irmão e a adolescente escreveram suas atitudes colaborativas para construírem possibilidades de mudanças de hábitos alimentares e emocionais que façam sentido para cada um do sistema familiar.

Nessa prática sistêmica, foi possível, como terapeuta de família, me colocar numa posição dialógica, colaborativa e agregar outro recurso terapêutico ao Projeto da família. Para que mães, pais, filhos, filhas possam fazer um “balanço problematizador”, ou seja, avaliarem suas percepções, dificuldades, facilidades e possibilidades em relação ao processo de mudanças da família.

Dessa forma, foi criado um quadro de sinais com cores semelhante ao de sinal de trânsito. Estabeleceu-se que o sinal verde representa as atitudes de cuidado e compromisso com os acordos feitos no Projeto da Família, e que, conforme as variações de algumas situações da vida (turno na escola, atividades extra escolar, festa na casa dos avós), podem ser flexibilizados ou recombinados. O sinal amarelo representa as atitudes de permissividade que significam que mães, pais estão permissivos quanto aos combinados/limites estabelecidos entre eles, por exemplo, cedendo aos apelos, vontades excessivas das crianças e dos adolescentes para o consumismo, em função de sentimentos de culpa por permanecerem maior parte do tempo no trabalho do que com filhos e filhas. E o sinal vermelho representa as atitudes de excessos de controle dos familiares que desvalidam a oportunidade de exercitarem uma relação de confiança com as crianças e adolescentes, quanto a aprenderem a participar e cumprir combinados em comum acordo, e de respeitarem os limites estabelecidos pelos adultos.

Esses encontros conversacionais entre crianças, adolescentes e familiares, mediados pela terapeuta através desses recursos do projeto da família e do quadro de sinais, propiciam intervir com cuidado no complexo processo de diferenciação quanto às crenças da família de origem e da família atual sobre hábito alimentar, e de identificações transgeracionais.

Nessa prática sistêmica a criança e o adolescente se sentem acolhidos e valorizados fazendo parte de um projeto de mudanças que envolvem mãe, pai, irmãos que se ajudam mutualmente, reciprocamente compartilhando responsabilidades, emoções e atitudes para que possam ser compreendidas e transformadas nos sistemas familiar e social.

Ressalto que, nessa prática sistêmica, estabeleço conexões com profissionais da saúde como médico endocrinologista, nutricionista para serem parceiros das crianças, adolescentes e famílias no processo de mudanças que também, possam refletir em alterações no peso corporal.

Sendo assim, esse processo de mudanças configura-se como um movimento sistêmico de redes familiares, profissionais, sociais, afetivas e solidárias!

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Como citar este artigo

TASSARA, Valéria. Projeto da Família: um recurso terapêutico sistêmico. Práticas Sistêmicas, [S. l.], 28 jul. 2026. Disponível em: https://praticassistemicas.psc.br/artigos/projeto-da-familia-um-recurso-terapeutico-sistemico. Acesso em: 12 set. 2026.

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Conteúdo de caráter informativo — não substitui avaliação, diagnóstico ou atendimento por profissional de saúde mental.