Circularidade
Publicado em · revisão substantiva em : acrescentada a distinção entre circularidade retroativa e recursiva
Princípio que descreve as interações num sistema familiar como uma cadeia de influências recíprocas, e não como sucessão linear de causa e efeito: cada resposta de um membro realimenta o comportamento dos demais, formando um ciclo sem um único ponto de origem.
Da causalidade linear à circular
Bateson e o grupo de Palo Alto propuseram que as interações humanas não seguem o modelo linear (A causa B), mas um modelo circular emprestado da cibernética: o comportamento de A afeta B, que por sua vez realimenta o comportamento de A, num ciclo contínuo sem início nem fim definidos. Perguntar "quem começou" deixa de fazer sentido: o que importa é o padrão que se repete, não o elo inicial da cadeia.
A pontuação da sequência
Watzlawick, Beavin e Jackson descrevem como cada participante de uma interação pontua a sequência de eventos à sua maneira, atribuindo início e fim ao ciclo conforme a própria perspectiva: o cônjuge que se retrai porque o outro cobra, e o que cobra porque o outro se retrai, cada um vendo a própria reação como resposta, não como causa. Essa divergência de pontuação, mais do que qualquer comportamento isolado, costuma sustentar o conflito.
Retroativa e recursiva: duas circularidades
A cibernética de primeiro momento, de Norbert Wiener, descreve uma circularidade retroativa: o anel de regulação em que A afeta B, que por sua vez realimenta A, como no termostato ou no sintoma que mantém o equilíbrio do sistema familiar, e é o que as seções anteriores deste verbete descrevem. Edgar Morin propõe um sentido mais amplo, a causalidade circular recursiva: um processo em que os produtos e os efeitos são, eles mesmos, produtores e causadores daquilo que os produz, como a organização social que produz os indivíduos que, por sua vez, produzem a organização que os produziu. Não se trata apenas de retroalimentação, mas de autoprodução e auto-organização. Um sentido ainda mais forte de recursividade, em que o observador está incluído no próprio sistema que observa, pertence à cibernética de segunda ordem e à autopoiese.
A pergunta circular na clínica
O grupo de Milão (Selvini Palazzoli, Boscolo, Cecchin e Prata) transformou o princípio da circularidade num instrumento de entrevista: em vez de perguntar diretamente a um membro da família como ele se sente, o terapeuta pergunta a outro membro como percebe a reação do primeiro diante de um terceiro. Essas perguntas circulares revelam o padrão relacional sem atribuir culpa individual, e ajudam a família a enxergar a própria dinâmica como um sistema de influências mútuas.
Onde este conceito aparece
Conceitos vizinhos
Fontes
- Watzlawick, Paul; Beavin, Janet Helmick; Jackson, Don D.. Pragmatics of Human Communication: A Study of Interactional Patterns, Pathologies, and Paradoxes , 1967.
- Selvini Palazzoli, Mara; Boscolo, Luigi; Cecchin, Gianfranco; Prata, Giuliana. Hypothesizing–Circularity–Neutrality: Three Guidelines for the Conductor of the Session. Family Process, v. 19, n. 1, p. 3–12 , 1980.
- Morin, Edgar. Introdução ao pensamento complexo (5.ª ed.; E. Lisboa, Trad.). Sulina. Publicado originalmente em 1990 como Introduction à la pensée complexe , 2015.
- Vasconcellos, Maria José Esteves de. Pensamento sistêmico: o novo paradigma da ciência. Papirus , 2002.
Como citar este verbete
PRÁTICAS SISTÊMICAS. Circularidade. Práticas Sistêmicas, [S. l.], 3 set. 2026. Disponível em: https://praticassistemicas.psc.br/glossario/circularidade. Acesso em: 1 out. 2026.
